Se passaram seis anos desde a última vez que escrevi publicamente um TOP 5 sobre algo pessoal. Na ocasião, citei os melhores fins de relacionamentos a que já havia experimentado. Eu mudaria muita coisa nessa lista, posso assegurar. Ao invés de embarcar em uma piscina de lágrimas magoadas, preferi falar sobre abraços. Quis relembrar os cinco momentos em que abracei/fui abraçado e que significaram algo especial na minha vida. Propositalmente, omiti o dia em que um morador de rua quis me encoxar depois de dizer que eu "era muito aconchegante".
Para muitos de nós, o abraço está diretamente relacionado ao carinho, amizade, amor, sexo. Como humanos, criaturas bípedes com a pretensão de se achar mais evoluída que os nossos amigos macacos, temos a necessidade de tocar, ser tocado. Sentir o calor humano. A gente sente isso naturalmente, e aí podemos pensar justamente nos macaquinhos que ficam se abraçando e tocando quando filhotes. No entanto, é extremamente surpreendente pesquisar sobre a origem do abraço e descobrir que tudo começou com os mafiosos italianos, aparentemente.
Não pense que eram demonstrações de afeto da Família. Os sebosos se abraçavam, davam tapinhas nas costas, e na cintura para ter certeza que o sujeito estava desarmado. No Japão, o costume era diferente, já que eles preferem resolver as coisas com espadas, e portanto fazem aquela reverência com o corpo inclinado para frente, o que possibilitaria ver se uma adaga/espada estaria escondida nas costas da pessoa em questão.
Deixando de lado os costumes mafiosos, quero dedicar esse texto para todas as pessoas que um dia me abraçaram ou foram abraçadas. Para todos os meus amigos, obrigado pelo apoio, carinho, paciência e amor. Vocês são importantes.
Casamento do Weverton em 2013
Conheci o Weverton durante o ensino médio. No começo, a relação não era muito amistosa. Eu era novato na escola e adolescentes podem ser um tanto terríveis. Demorei para me ajustar, e sinceramente, nunca fui um tipo muito comum. Essa dificuldade inicial me fez ser excluído da maioria das coisas da turma e ainda me rendeu o apelido carinhoso de "jacu".
Engraçado é que demorou para a gente se aproximar. Hoje, mais de dez anos depois de nossa formatura, ele foi um dos poucos com quem mantive contato e amizade mesmo - ainda que nossos encontros sejam extremamente raros. No 3º ano que finalmente ficamos mais próximos. É comum, né? O último ano que passaremos ao lado de pessoas que estiveram conosco diariamente por tanto tempo é o ano em que percebemos o quanto vamos sentir falta dessa época.
O Weverton estava no primeiro dia em que experimentei alcool. Na verdade, ele foi a primeira pessoa que vi bêbada. Lembro perfeitamente dele comprando batatinha numa rede de fast food e correndo de todo mundo que tentava pegar as batatas dele. Me recordo com igual riqueza de detalhes o momento em que pulei no ombro dele e esqueci de me segurar. Foi um bom tombo para um dia hilário. Era o começo da "vida", de explorar a noite, de fugir da rotina em casa e experimentar as coisas boas da vida. Meses depois, a gente já tinha ido num número considerável de shows juntos. Tianastácia, Pop Rock Brasil, e o lendário show do Charlie Brown Jr. com o Raimundos (com o Rodolfo no vocal ainda), quando ele perdeu o relógio, dinheiro e descobriu a beleza.
Em 2013, dez anos após nossa formatura, o Weverton trocou alianças e juras de amor eterno com a sua namorada. Foi um relacionamento que começou em 2003, e eu vi tudo começando. Das cartinhas de amor até os telefonemas naquela promoção de 31 anos da Oi. Ele foi o meu primeiro amigo a se casar de verdade e não poderia ter mais orgulho desse carinha, portanto o quinto lugar do meu TOP 5 de Melhores Abraços tinha que ficar com ele.
Depois da cerimônia de casamento, o qual fui acompanhado da minha ex-namorada que vocês conhecerão daqui a pouco, aconteceu aquela tradicional fila para cumprimentar os noivos. Alguém sugeriu dar um abraço no Weverton e simplesmente não soltar o cara. Claro que achei isso extremamente engraçado, embora hoje fique pensando que foi algo meio idiota e sem noção, mas sou acostumado a fazer loucuras e esse tipo de coisa. Chegou a minha vez, desejei o melhor para aquele loiro safado e continuei abraçado em silêncio. Deu até para notar o momento em que ele ficou chateado. "Que porra é essa? Esse maluco não vai me soltar?"Eu soltei, claro. Mas foi um abraço sincero em um grande amigo no dia mais importante da vida dele. Casamentos são especiais e ter participado disso é algo que me deixa orgulhoso, e reflexivo sobre o quanto estamos ficando velhos...
Débora no Pop Rock Brasil em 2005
Todo mundo já se apaixonou por alguém que não estava nem aí para você. Essa é uma verdade soberana que causa arrepios e pesadelos para muitos adolescentes. Provavelmente, muitos tiveram que fazer terapia por isso. Veja bem, não se trata de levar um fora, um daqueles tocos muito bem dados, se trata de simplesmente ser ignorado. A pessoa sequer te enxerga. Vivi isso em muitas oportunidades e me tornei frio para evitar novas mágoas, mas sou capaz de relembrar de uma história em especial com um sorriso no rosto.
Conheci a Débora enquanto vivia o final de um relacionamento destrutivo. O que é uma redundância, se tratando do meu histórico pessoal. Vi a foto dela na comunidade da nossa escola no Orkut, percebi amigos em comum, e iniciei uma conversa inocente. Depois que terminei, achei que seria interessante investir na menina branquela de cabelos negros que gostava de Incubus. O saudoso MSN era o nosso "ponto de encontro" exclusivo. Basicamente, o papo era sempre meio mongol, comigo falando gracinhas para ela rir, e a gente discutindo sobre quais bandas eram melhores, qual filme a gente tinha assistido recentemente, esse tipo de besteira adolescente que faz os adultos vomitarem de vergonha quando se recordam. "Sério que eu falei isso para uma menina? E sério que ela caiu nesse papo mole?"
Lembro que comecei a ir na porta da escola de vez em quando para encontrar com ela. Nunca rolou nada. Eu sequer tentava, para ser sincero. Era tudo muito inocente. Não existiam nem olhares. Uma autêntica paixão platônica, daquelas que ouvimos em tantas canções românticas por aí. As coisas começaram a mudar no dia em que a convidei para o cinema.
"Ei, vamos no cinema?"
"Claro. Será que o povo anima? Vou combinar com eles para a quarta-feira e a gente vai, tá?"
Ao ouvir a palavra "povo", meu rosto trincou. "Que desgraça de povo do caralho! Queria ir no cinema sozinho com você, porra!". Ao invés de dar um ataque de plumas, deixei rolar. Dias depois retornei a ligação para confirmar o cinema.
"E aí? Tudo certo para amanhã?"
"Ih, TT... ninguém animou. Só eu mesmo..."
"Ué, então vamos nós dois..."
"Ah, não. Acho que você está confundindo as coisas... A gente é amigo."
Ao ouvir "confundindo as coisas", senti o macarrão do almoço voltando para o lugar de onde entrou. O medo de vomitar falando no telefone me fez pensar rápido e ter a incrível capacidade de ignorar o "a gente é amigo":
"Como assim? Eu tô confundindo o que? Somos amigos que não podem sair juntos?"
Cheque-mate, bitch.
Ela não tinha como retrucar, já que tudo era velado demais. Deixamos assim. Não rolou cinema. Não fui mais na escola. Não entrava mais no MSN como antes. A gente se afastou naturalmente. Eu havia desistido. Não me lembro ao certo, mas provavelmente tinha partido para outra. E isso não significa "sucesso", tenha certeza. Alguns meses se passaram até o nosso reencontro inesperado durante uma edição do festival Pop Rock Brasil, de 2005. Eu estava acompanhado do meu amigo Vinícius Coimbra e estávamos ansiosos pelo show do Ramirez. É. Que fase.
Acho que a gente estava flertando com um grupo de meninas (ou pelo menos a gente estava tentando ou achando que era isso que estava acontecendo), quando de repente alguém apareceu pulando em cima de mim. Literalmente. Eu podia ter caído no chão, já que força não é, e nunca foi, o meu forte. Demorei para reconhecer a magrela de cabelos pretos, e então a gente se atracou num abraço bem forte, daqueles que a gente dá quando reencontra alguém e fica realmente contente. No instante seguinte em que ela me soltou, a Débora olhou para o Vínicius, que até então não tinha a menor ideia de quem era ela.
Nesse momento, o meu computador mental começou a relembras as seguintes informações: 1) Débora curtia meninos com alargadores na orelha; 2) Débora curtia meninos que tinham um certo visual skatista ou qualquer coisa que fosse remotamente parecido com o visual do Brandon Boyd, do Incubus; 3) Débora gostava de meninos altos; 4) O Vinícius preenchia todos os requisitos. Exatamente o tipo de menino que ela pirava.
Eu era magrelo, branquelo, com cabelos compridos e totalmente bagunçados. Meu visual era a última coisa que chamava a atenção, certamente. Senti ciúme da situação depois de uma leitura rápida da tensão entre os dois. Acabei desencanando. Ela já havia me dado um toco antes, nada havia mudado. Que ela fosse feliz beijando o meu amigo então - mas aquele abraço tinha sido gostoso demais para não significar nada. Carinho apenas? Depois de uma conversinha mole dos dois, a Débora saiu com uma amiga e foi para outra parte do local do show.
Achei que não a encontraria de novo, mas graças a uma sucessão improvável de eventos, eu acabei não apenas reencontrando-a, como ela acabou indo para a minha casa naquela noite. Logo depois iniciamos um namoro breve, mas daqueles que guardamos para sempre no coração.
Isabella no dia 14/04/2008
Abraços são especiais. Mesmo sendo algo tão simples, e que geralmente é feito com qualquer pessoa, eles ganham muito significado em momentos importantes. Naqueles em que palavras não significam nada e o silêncio de um abraço diz o suficiente. Não existe nada para ser dito quando a alma está destruída.
O ano de 2008 foi marcante. Vivi descobertas sexuais. Conheci e explorei a minha liberdade e potencial pela primeira vez. A consequência disso foi o envolvimento com várias parceiras. Por outro lado, o lado familiar estava, como sempre, no limite. Num lugar perigoso em que decisões estavam sendo tomadas e o caminho mais fácil parecia ser olhar para o outro lado. Pensando nisso, percebo que meu excesso de cuidados e preocupação pode ter começado aí. Um aviso sério foi ignorado, pois o certo é cada um cuidar de si. Tenho dificuldades em entender isso e quero resolver o mundo de quem está comigo antes do meu próprio.
Eu não estava conversando com a minha avó nessa época. Ela estava no pior momento de sua depressão, tratando todos mal, fazendo com que todos se afastassem. No dia 13, um domingo, eu tinha um show para fazer. Saí de casa sem me despedir dela. Abri o portão com a minha mochila e o meu baixo nas costas, e fui embora. É impossível a gente prever o que vai acontecer e sempre vamos nos lamentar por não ter feito nada diferente, por não ter percebido os sinais. Virou uma culpa velada e que nunca será superada, independente do que digam. No último momento que dividimos juntos, eu optei por ir embora de maneira grosseira. Egoísta
Nunca mais a vi.
Me surpreendi com a minha capacidade de chorar. De lamentar. Parecia sempre que eu era mais forte, quase insensível, quando fui o mais arrasado. O dia seguinte, no velório, reencontrei o Diego, vocalista da minha banda, e um dos primeiros amigos que ficaram sabendo. A gente se abraçou. O único som era do meu choro abafando o dele. O mesmo se repetiu quando o Thiago (meu amigo de infância) chegou acompanhado de sua mãe. Quando o Joubert (meu sócio no Cinema de Buteco), numa incrível demonstração de autocontrole, foi incapaz de fazer qualquer comentário engraçadinho que fosse para quebrar o gelo. Mas foi justamente no ombro da garota que eu estava enganando que desabei com mais força. A pessoa que me amava, que queria o meu bem, que queria que eu a respeitasse e a amasse, e que eu simplesmente era incapaz de fazer tais coisas. Novamente, o meu egoísmo.
Ela me abraçou forte. Como se estivesse tentando tirar todo o peso e a dor de mim. E eu a apertei junto do meu corpo. Molhei a roupa dela inteira com minhas lágrimas, minha saliva, melecas, whatever. Isabella é uma menina pequena, mas nesse dia mostrou sua força. Ficou ali parada do meu lado, sabendo que o maior consolo existente estava na sua companhia silenciosa.
Eu trocaria tudo pela chance de ter um novo abraço. O último adeus. Sentir aquele calor familiar de quem me viu desde o primeiro momento, do meu primeiro choro, do meu primeiro dia de vida. De quem eu cresci junto e me ensinou a amar tantas coisas, a ser quem eu sou hoje.
Mariana no Metrô em 2004
O segundo abraço mais gostoso que eu já experimentei aconteceu em 2004, no Rio de Janeiro. Mais precisamente na estação de Metrô de Botafogo.
Dizem que uma das grandes maneiras de demonstrar carinho é com os lábios. É verdade. Qualquer lábio envolvido costuma significar carinho. Exceto para pessoas promíscuas ou incapazes de acreditar no amor. Aí é apenas putaria mesmo. De qualquer maneira, um abraço pode ter o mesmo nível de intensidade de um beijo. Ele envolve um monte de sensações. Pode ser tão desesperado quanto um beijo apaixonado entre o casal que se perdeu e reencontrou depois de anos.
Conheci a Mariana através do Harry Potter. Ela era meio antisocial. Um humor muito estranho. Bom gosto musical. E era lindinha demais. A gente se apaixonou e viveu um autêntico rolo virtual adolescente. Percebo que essa época foi o começo das coisas erradas que insistem em se repetir na minha vida atual. Talvez eu não tenha cura em relação ao egoísmo. Ou simplesmente seja burro demais para entender como evitar erros assim. Digamos que eu terminei com a Mariana para viajar para Natal e pegar uma menina com quem eu tive um rolo (virtual) anteriormente. Nunca disse que era uma boa pessoa. Despedacei o coração da menina. E isso tudo aconteceu em 2002. É assustador ver o padrão se repetindo (o período de dois anos). No entanto, ela me perdoou e voltamos. "Voltamos".
Eu estava completamente apaixonado pela garota. E sequer a havia conhecido pessoalmente. O máximo que acontecia era um papo rápido (e nada safado) pela Webcam dela. Em setembro de 2004, as coisas começaram a esfriar. O contato mudou drasticamente e ficou claro que ela estava a fim de outra pessoa. Na época, eu ainda não tinha certeza de que todas as pessoas são mentirosas interesseiras e tão ou mais egoístas do que eu. Ou seja, enquanto ela estava praticamente pensando em como perderia a virgindade, eu estava confiante de que era apenas um caso passageiro. O irônico disso tudo é que as coisas começaram a mudar justamente na época em que finalmente tomei coragem de viajar para o Rio. Trágico, né?
No mesmo dia em que contei que iria encontrar-la em uma semana no show do Offspring (que por sinal, eu havia tocado inúmeras vezes no assunto. Ela fingiu ser tapada para ignorar que existia a chance de eu ir), ela confessou que havia ficado com o menino. Imagine o lag mental que se passou comigo. Tive força para sonhar que seria possível contornar esse problema e que tudo daria certo. Como se um relacionamento a distância pudesse mesmo sobreviver quando uma parte se apaixona por alguém que mora logo ao lado. Eu viajei mesmo assim. Peitei a vida. Truquei o destino. Desafiei o amor.
Fui recebido pela minha querida amiga Bruna, que entendia perfeitamente o que eu estava sentindo. Ela via a minha tensão ao sair da sua casa para finalmente conhecer a Mariana. Bruna e sua prima Thay se divertiram muito com isso, para falar a verdade. Durante o caminho da Tijuca até Botafogo, as duas começaram a me chamar de T-tenso. O trajeto não é muito demorado, para quem não é familiarizado com o sistema carioca. No entanto, minhas mãos ficaram molhadas. Pingando. Minha cor passou de naturalmente morto para zumbi do George Romero. Tremia. Tentava pensar em algo para me controlar, só que parecia incrivelmente impossível sequer tentar não pensar que estava prestes a conhecer a pessoa com quem vivi tantas experiências naqueles anos. Foi o meu primeiro "eu te amo". Não devia ser real, mas parecia o certo a se dizer. Pessoas falam essas coisas da boca pra fora. Acontece.
Chegando na estação de Botafogo, meu coração disparou. Por um momento pensei que eu realmente tinha mijado na calça. As pernas bambas caminhando até a escada rolante e então, a encontrei. Ela estava me esperando na entrada da estação. Não deu tempo de pensar, de falar "oi", de querer beijar, foi simplesmente uma coisa de me jogar nela como se não houvesse amanhã. Esse abraço marcou um momento especial, me fez sentir como é querer estar com uma pessoa que não queria estar comigo pela primeira vez. Virou um tipo de doença, aparentemente. Depois de minutos que pareceram horas, mas que devem ter sido segundos, a gente se soltou. Segurei a mão dela enquanto andávamos pelas ruas de Botafogo. Eu gosto muito desse bairro, aliás. Não por isso, claro. Ele simplesmente é um bom lugar para morar.
Se você ficou curioso (a) em saber, sim. A gente se beijou. Não foi um beijo espetacular ou inesquecível. Foi simplesmente triste, melancólico e com gosto de poeira. Nunca mais encontrei a Mariana. A gente mal se falou depois disso. Por uma coincidência do mundo, descobri muitos anos depois que ela havia ficado com um rapaz estranho chamado Leonardo. Esse carinha havia pegado outras duas meninas com quem eu tive relações. O mundo é estranho.
A Mariana não está nem no meu Facebook. Aposto que se casou com o garoto com quem me traiu e hoje está vivendo em alguma cidade na França. Apesar de tudo, ela me rendeu o primeiro abraço apaixonado da minha vida, e por isso serei sempre grato. E isso nos leva para o meu abraço favorito de todos os tempos. Também um abraço apaixonado, como não podia deixar de ser. Vamos falar da...
Julia no Rock in Rio em 2011
Em O Lado Bom da Vida, o personagem de Robert de Niro diz para Bradley Cooper: "Se a vida oferece uma oportunidade dessas, você não pode ignorar. Você não pode cometer erros. Você precisa correr atrás.". Eu li isso. Eu assisti isso. Não em 2011, claro, afinal o filme não havia sido lançado, mas a verdade é que não ouvi o conselho da obra linda de David O.Russell.
Assim como 2008, o ano de 2011 foi marcante. Era o fim de uma relação longa e destrutiva com a Isabella. Eu escolhi me confortar justamente com a mesma Débora que havia me abraçado no Pop Rock de 2005. Era fácil fazer isso porque a gente tinha uma relação de amizade com sexo. A ilusão do amor não deveria existir, o lance era apenas pela diversão. Só que eu nunca fui capaz de ser esse tipo de pessoa e durante todo o período em que "curtia" a vida adoidado com a Débora, conversava diariamente. Religiosamente. Constantemente. Com a Julia. Meu dia seria infernal se eu não ouvisse alguma coisa dela, se não recebesse nenhum SMS marcante engraçado reclamando do ônibus, dos cariocas, das pessoas. Eu ainda não havia percebido o recado que Robert de Niro me deixaria no futuro.
Julia vivia um relacionamento burocrático e ditatorial. Não havia felicidade. Bastava olhar nos olhos dela para saber que estava infeliz e em busca de socorro. A gente sente, a gente sabe. Os olhos não mentem. No entanto, Julia persistia. A gente havia tido um affair quente, e inesperado, na fila do show do U2, em abril do mesmo ano. Foi tudo surpreendente demais e isso nos aproximou de uma maneira em que médicos questionariam se éramos siameses intelectuais. Me acostumei a ter ela por perto. Ela se acostumou a me ter por perto. A gente estava por perto. Eu vivendo a minha vida cheia de sexo, drogas e bebidas. Ela vivendo a vida dela sem nada de sexo, drogas ou bebidas. Parecia improvável que a gente realmente pudesse ter algo de verdade um dia, mas mais impossível ainda era a possibilidade disso não acontecer. Eu queria ela. A distância me assustava, afinal era um trauma. Depois da Mariana, eu ainda me envolvi com uma outra garota do Rio. Nunca entenderei porque faço essas coisas comigo. A distância foi meu escudo para fingir que não sabia exatamente o que estava começando a acontecer.
Após abril, e de conversas frequentes por SMS ou e-mail (interrompidas em momentos que ela chegava no limite e desejava me esquecer), nosso reencontro aconteceu no Rock in Rio, em setembro. Lembro que tinha acabado de fazer um escândalo (literalmente) na Montanha Russa. Chorei, gritei, pedi para o cara parar. Tudo para envergonhar a Débora, a Bruna e o amigo Kibe. Consegui fazer todo mundo passar mal de rir. Fiquei feliz. Estava tudo lindo. Poderia ficar maior e melhor, caso houvesse alguém preenchendo o meu coração, vítima de minhas próprias sabotagens. Um verdadeiro escravo da minha ignorância, egoísmo, e especialmente burrice. Funciono de maneiras tortas, aparentemente. Tenho um fraco por causas perdidas, quando deveria aprender a viver o que é real. Enfim, devaneios à parte, faltava alguma coisa.
Eu mandava mensagens freneticamente para a Julia, que respondia com igual voracidade. Já havia reconhecido ela no meio da multidão. Haviam outras pessoas por perto, o namorado dela, por exemplo, mas foi ela quem vi primeiro. Fiquei olhando de longe. Foi eu sair da Montanha Russa para ir direto encontra-la. Direto. Cruzamos com um monte de gente bêbada ou malucos fazendo filas. Tropecei em alguém, ela trombou com outro. E o meu olhar parou no dela.
Nota mental: se você olha para alguém em uma situação assim, de reencontro, e sente que existe um verdadeiro túnel de energia do bem separando vocês de qualquer interferência externa, não pense demais. Não fuja. Aceite: você está prestes a se apaixonar.
Na minha experiência de vida, sabia que meu abraço com a Mariana havia sido especial. Acreditava que superar aquilo seria impossível. Tipo, eu teria que ser prisioneiro em algum país como a Colômbia, e então voltaria para casa anos depois e receberia esse tipo de abraço da minha mãe, sabe? Que feliz foi constatar um engano desses, uma verdadeira surpresa foi sentir que era possível superar o impossível. O meu impossível.
Aquele abraço foi mais desejado que sexo. Foi melhor que muitas transas que tive, na verdade. E sequer me lembro de ter tido uma ereção ou não, de tanto que isso importava. Um abraço daqueles não é para qualquer um. Não é algo comum, não é fácil ou simples de acontecer. É especial. Único. A gente se prendeu um no outro com ternura, amor, carinho, cuidado, confiança. O mundo estava acontecendo ao nosso redor e havia apenas silêncio. Só o cheiro do cabelo dela no meu rosto. O cheiro do perfume dela passando pelo meu nariz. Os seios dela no meu peito. Nossos braços apertando o ombro um do outro.
E mesmo assim, depois de ter sentido essas coisas. Falado um "uau". E termos praticamente ignorado o fato de que os dois estavam acompanhados, fui cego e burro o suficiente para não entender que o meu destino, a minha vida, o amor da minha vida, estava ali parada na minha frente.
Já errei antes, mas a idade nos torna experientes para reconhecer que Robert de Niro deixou um recado bem sério e simples. E que eu não ouvi. O curioso é que a Julia protagonizou outros abraços marcantes na minha vida. Um breve momento antes do show do Pearl Jam, ainda em 2011; durante um amasso selvagem numa boate deserta no Rio, em 2012; quando ela lutou por mim e veio de maneira inesperada para BH, em 2013, e tentar evitar que eu fosse enganado por uma pessoa cruel; e o nosso Reveilon solitário em 2012. Provavelmente, terei pesadelos por não ter seguido o conselho do meu querido Jake LaMotta.
Irônico encerrar falando justamente de um ator que ganhou fama interpretando mafiosos no cinema, não?

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