domingo, 23 de novembro de 2014

Sobre o RPM ontem

Ouça: "Olhar 43" - RPM



Tinha uma necessidade pessoal de ver ao vivo todas as bandas que já ouvi quando era moleque. No caso do RPM, era mais "especial" porque Radio Pirata foi o primeiro LP que ouvi. Lembro de ser um pirralho catarrento que ficava se revezando em gravar músicas na 98fm e ouvir as bolachonas. Ontem surgiu a oportunidade de resolver essa pendência e lá fui acompanhado do meu amigo Jonesy. 


Confesso que não escutava RPM há anos. Fora as duzentas versões da música do BBB, eu não sabia mais nada sobre os caras desde aquele "retorno triunfal" para a MTV em 2002. Tinha a vaga lembrança das músicas e concluí que elas ficariam melhores acompanhadas de muito alcool. Uma verdadeira orgia de saliva, cevada, milho e água. Assim fizemos. Com um pacotinho de pão de queijo para acompanhar e não dar ruim depois, claro. 



Com mais de uma hora de atraso, já começamos a comparar Paulo Ricardo com Axl Rose. E olha que eu nem sabia que ele estava gordo. Na verdade, inchado. Depois de trocar de roupa três vezes e fazer questão de apresentar a maioria das canções num excesso de simpatia que poderia muito bem ser interpretado como excesso de vaidade e ego elevado, a comparação com o vocalista do Guns não poderia ser mais acertada: ambos se tornaram sombras do que eram e parecem realmente viver presos no passado. PR usou a palavra "danceteria" diversas vezes. Meu Brasil, estamos em 2014. É feio falar "danceteria" em público. Sei que podia ser pior. Ele poderia ter falado "discoteca". Imagine só!



Concluímos que a cerveja de abertura não seria o bastante. Iniciei uma longa e animada conversa com a atendente e disse que a noite seria longa. "Precisarei de artilharia pesada! Chama o José!". Como um bom soldado, nosso amigo José Cuervo se apresentou e cumpriu a sua missão. PR diz que o RPM tem influências do rock progressivo, né? Em "Naja", faixa instrumental, percebi que o José não fracassava nunca e que sons psicodélicos (essa é realmente boa, embora tenha soado um tanto brega) aliados a efeitos visuais dignos de filmes sci-fi são ingredientes fatais para o sucesso do José. 



Sentindo o corpo explodindo de calor de dentro para fora, e no meio de uma pista estranhamente fria e vazia para uma noite de sábado no Chevrolet Hall, o show começou a ficar aceitável. Cada vez mais surreal (em "Rainha", o telão fazia questão de mostrar imagens bastante ilustrativas da letra, com uma lingua vulgar. Sim. EU achei aquilo vulgar), mas divertido. Os melhores momentos aconteceram quando PR iniciou uma das várias medleys da noite. Essa em especial foi marcante: "Imagine" (John Lennon), "No Woman no Cry" (Bob Marley) e "One" (U2). Por algum motivo que não me lembrarei agora, começamos a rir muito. Era surreal imaginar que o "rock progressivo" havia se transformado radicalmente num intervalo tão curto de tempo. A minha barriga estava doendo de verdade de tanto que a gente estava rindo e se divertindo. Lágrimas escorreram pelo meu rosto. Ria cada vez mais alto. As pessoas estavam ficando meio chateadas com minhas gargalhadas incessantes. Confesso que eu e o John não estavamos sendo as pessoas mais legais e tranquilas do recinto com as risadas e comentários cada vez mais maldosos. No entanto, o que me fez ajoelhar de verdade foi quando PR disse que "a década de 1970 havia sido muito importante para o rock". Ele incluiu U2 no pacote. Foi demais para mim. Depois dos nossos gritos indignados, algumas pessoas passaram a concordar e rir COM a gente.



Tentei cantar juntinho em algumas músicas. Fracassei miseravelmente na maioria. Em outra medley, PR e sua trupe iniciaram "Wish You Were Here", do Pink Floyd. Essa eu sabia cantar. Essa eu queria cantar. No ponto alto do amor, o vocalista cortou para uma música do RPM. O John olhou para baixo, incrédulo e disse: "Não se mistura uma música do PF com RPM. Não pode. Não pode.". Tentamos acompanhar "Olhar 43" (que teve uma apresentação vergonhosa e digna de uma banda que realmente se acha relevante), "Alvorada Voraz" (eu sabia fazer o acompanhamento do teclado pelo menos), e "Rádio Pirata" ("toqueeeee o meu coraçãaaao"). Por esses momentos, quase pude acreditar que estava num show para relembrar minha infância. Quase. Não posso deixar de mencionar um cara que ficou com os braços abertos durante uma música inteira. Senti vontade de ir até ele e dar um abraço. O show acabou e começamos a observar o público. Não sei se era apenas a bebida fazendo efeito ou se o Chevrolet não tinha gente o suficiente nessa noite, mas não me lembro da pista ficar vazia tão rápida. Fiz uma breve entrevista com uma família (Adoro essas interações - e eu sou cruel nesses momentos) e achava que aquele seria o fim de uma noite inesquecível de sábado. Sem sexo, veja bem. No entanto, o melhor SEMPRE fica para o final. Como crítico de cinema, eu deveria ter isso em mente o tempo inteiro.



Quase na saída da casa, vi uma garota perder o sapato. Gritei: "Moçaaaaa, você perdeu o seu pé!!!", com um sorriso maroto e a linguinha de fora. Gentilmente, como não conseguiria deixar de ser, ofereci meu braço para que ela se apoiasse e calçasse o sapato, né... Daí foi a vez dela falar sensualizando: "E foi você quem encontrou meu sapato". Dei um sorriso educado e continuei andando com a barriga se contorcendo mais que nas séries malucas de abdominais que faço na academia. Minha vontade foi deitar na posição fetal e derreter de tanto rir. O John evitou qualquer contato visual comigo depois da cena e repetia: "Quero ir para a casa dormir. Quero ir para casa. Chega por hoje". 



Encontrei um taxista que ainda botou mais pilha dizendo que a menina não tinha um "sapatinho", mas um "kichute, um kichute no saco". E fomos rindo da Savassi até a minha casa. Achei que o efeito fosse passar depois que começamos a falar de futebol (o fdp era torcedor do time azul e estava com aquele ar de "sou foda") e depois política. Felizmente entrei em casa feliz o suficiente para azucrinar algumas pessoas pelo Facebook antes de apagar e sonhar com o que encontrarei no dia 12 ou 13 de dezembro, quando fecharei minha conta nacional com o Ira!, mas desta vez não vamos precisar recrutar José nenhum para a noite ser foda.

(Para saber mais do show do RPM leia a cobertura completa no Audiograma

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